Ainda sobre as mães…

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Eu sempre me achei madura. Desde criança. Quando eu tinha uns 3 (ou 4) anos de idade fui para escola a primeira vez. Lá em Pato Branco, no Paraná. A memória é algo vivo e construído, mas o que me lembro perfeitamente é que meu pai me deixou de carro na escola. Ele deve ter falado alguma coisa sobre onde espera-lo no fim da aula, mas a minha empolgação era tanta que não ouvi.

Quando as aulas acabaram, não tive dúvida. Peguei minha lancheira e comecei meu caminho de volta para casa. A pé, sozinha. Em nenhum momento eu tive dúvida de que era algo que eu poderia fazer. Não sei quanto andei, se fui pelo caminho certo. Meu pai me encontrou antes que eu chegasse em casa.

Durante a adolescência escutava sempre: “nossa, como você é madura para a sua idade”. Sou a irmã mais velha, o que contribui bastante para a construção desse estereótipo. “Você tem que dar o exemplo”. “Você tem que cuidar da sua irmã”. Por aí vai. Assim fui crescendo, já achando que estava pronta.

Até às 19h29, do dia 15 de junho de 2011. Hora do eclipse lunar e do nascimento da Tarsila. Só quando comecei a minha jornada como mãe é que me descobri tão imatura. Porque quando a gente sonha em ter filhos, se esquece que teremos que conviver com eles o tempo todo. Inclusive quando estamos cansadas, doentes, com preguiça, sono, TPM. Ter filho significa estar disponível. E deixar-se. Poxa, como é difícil.

Essa viagem só tem me mostrado o quanto ainda preciso amadurecer. Laura Gutman diz que a “violência, como fenômeno individual e coletivo, é simplesmente isto: a impossibilidade de dois desejos conviverem em um mesmo campo emocional”. Como conciliar o seu desejo de continuar num passeio quando a sua filha precisa almoçar? Ou a vontade de contemplar uma paisagem maravilhosa do monte Malakoff quando ela já está irritadíssima?

A Tarsila com sono, cansaço ou fome, é praticamente outra criança. Ela xinga, bate, morde, joga as coisas no chão. Começa a pedir coisas sem sentido. O que ela está querendo é colo, aconchego, descanso. Mas o que recebe muitas vezes é briga. Porque em muitos momentos eu me esqueço que eu sou a adulta da relação. Quem tem que entender, se adaptar, cuidar, sou eu. Não, ela não tem a obrigação de ser perfeita, obediente, educada o tempo todo, especialmente quando atingiu seu limite.

Tenho certeza que ela aguentou firme. Só estourou quando não dava mais. E nessas horas me sinto perdida. Pedir que se comporte não dá resultado. Suplicar-lhe que seja boazinha, também. Bater, muito menos. Só estarei ensinando que violência é um recurso a ser usado durante um conflito.

Então é quando eu me lembro da criança que ainda sou. Indefesa, insegura, carente. Quando me enxergo como sou, tenho compaixão por ela. Quando admito o meu medo e incapacidade, construo um caminho junto com ela para uma relação harmoniosa. Eu preciso dizer para ela que ainda estou aprendendo. Preciso conversar, ouvir o que ela quer. Tentar chegar a um acordo onde ambas somos respeitadas, não uma vontade minha imposta a ela porque “quem manda aqui sou eu”. Uma amiga me disse uma vez: a criança nem sempre precisa ser atendida no que ela pede, o que ela quer é ser compreendida e ouvida por alguém que a ame. E amor eu tenho demais por essa menina. Afinal, é ela quem me mostra quem eu sou de verdade. A minha beleza e a minha sombra.

8 comentários em “Ainda sobre as mães…

  1. Ana, disse tudo! Sempre ouvi as recém mamães dizerem: `Agora eu entendo minha mãe’. E eu, que também sempre achei (e fui considerada) de madurez precoce, agora com a Beatriz, tenho pensando mais na criança que fui (e também ainda sou). E tenho vontade de dizer: ‘Agora eu me entendo filha´ (assim, sem vírgula, mesmo).

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  2. “Conviver em um mesmo campo emocional”. A difícil tarefa de se relacionar. Que sua experiência com a Tatá nos ajude a entender melhor não só os pequenos, mas todos os outros que estão caminhando conosco.

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  3. É isso! Lindo demais!! Às vezes tenho a sensação de estar fazendo alguma coisa errada, principalmente com o Gabriel, que está entrando na adolescência! Lendo esse pensamento, descubro-me normal, como todas as mães. Acho mesmo que faço muitas coisas erradas, mas tento aprender com esses erros. Afinal, quem não erra? Aninha, estou AMANDO essa aventura! Parabéns pelo desprendimento de vocês!!! Beijo!

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