Um cheirinho de céu

DSC_0756-001A Tarsila adora me dar flores e folhas. Eu a levo a pé para escola e no caminho sempre temos que parar para ela pegar algo para me dar. Nessa viagem isso foi constante. Com a natureza abundante, o tempo todo eu ganhava alguma coisa. Mas há algo interessante, ela nunca escolhe a que aparentemente é a mais bonita. Se há uma flor inteira e um pedaço de flor já meio comidinha pelas formigas, sempre ganho o segundo. Ela vê a beleza. E me dá com um carinho e amor de quem certamente escolheu o melhor.

Já começamos o nosso caminho de volta na viagem, uma das melhores de nossas vidas. Fizemos tantos passeios, que as vezes temos que parar para lembrar tudo o que já vimos. Fomos ao Jardim Botânico, em Curitiba. Descemos a Serra do Mar de trem e passeamos por Morretes. Fomos à Lages e parte da Serra Catarinense. Andamos pela estrada lindíssima que liga essa parte de Santa Catarina com a serra gaúcha. Conhecemos a simpática e bela cidade de Nova Petrópolis, que nossos amigos escolheram para morar. Subimos o morro Malakoff. Conhecemos as cidades de Gramado e Canela, onde acampamos numa área de floresta, com um céu de estrelas que há muito não víamos. Conhecemos o parque do Caracol. O teleférico. A cachoeira. E, talvez o ponto alto da viagem, subimos ao Canyon Fortaleza, num dia claro de sol, com alta visibilidade e pegamos uma garoa e frio no Canyon Itaimbezinho, mas surpreendentemente com boa visibilidade também.

Em todos esses lugares a sensação era de: uau! De nos questionar como conseguimos morar em São Paulo, lugar cinza, quase sem atrativo natural, poluído, com trânsito. Quando cheguei à parte mais alta do Fortaleza e vi de um lado o abismo de mais de 900 metros e do outro o oceano Atlântico não conseguia pensar em mais nada a não ser agradecer pelo privilégio de ter vivido para isso. Um dos lugares mais lindos que já vi.

Ao observar a reação da Tarsila nesses lugares percebi que o deslumbramento não era igual. Ela achava bonito, ficava impressionada com algumas coisas, mas não como a gente. Às vezes me esqueço que ela ainda tem um cheirinho de Céu. Que a vida para ela é inteiramente bela. Ela ainda não está contaminada. Seu julgamento de bom/ruim, belo/feio não tem nossos parâmetros. Tem os dela. E são bem simples.

Talvez por isso hoje tenha sido o dia em que ela ficou mais feliz. Chegamos ontem à Bombinhas. Estamos em um camping novamente. Hoje ela acordou, saiu da barraca sozinha e ficou brincando em um escorregador bem em frente. Depois fomos à praia da Sepultura. Lugar pequeno rodeado por pedras, mar calmo e limpo, cheio de peixes. Ela ficou tranquila, jogou areia, montou castelos e chapéus de bruxa, nadou na água congelante. Riu sozinha. Cantou as suas músicas inventadas. E me deu um monte de flores pequenininhas, cheia de areia. E de vida.

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