Tempo, tempo mano velho

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A minha passagem favorita da Bíblia é Eclesiastes 3. Leio tanto que sei praticamente de cor. Mas cada vez que leio, parece que é a primeira vez. Sempre vejo algo novo. Acho um texto que fala da complexidade que é viver e ser. Há tempo para tudo debaixo do céu. Há tempo de nascer, tempo de morrer. Tempo de derrubar, tempo de construir. Tempo de chorar, tempo de rir. Tempo de abraçar, tempo de afastar-se de abraçar. Todos fomos feitos de pó. E ao pó retornaremos. Nenhum ser humano escapa disso.

Praticamente metade dessa viagem ficamos hospedados na nossa barraca. É uma barraca grande. Quarto e sala. Fico praticamente em pé dentro. Coube confortavelmente nós três. É tudo o que nós precisávamos para viver nestes dias. Viver em um lugar tão pequeno tem muitas vantagens. Está tudo à mão, a família fica inevitavelmente unida, você percebe quanto aparelho tem em casa que não precisa. Tudo vai se reduzindo ao essencial. Na primeira vez que acampamos montamos uma mesa dentro da sala/cozinha. Não ficou legal. Na segunda vez já percebemos que mesa não é essencial. Que podíamos usar uma caixa que em estávamos guardando algumas coisas.

De tudo, a parte que eu mais gostei de estar acampada é a conexão com a natureza. O encontro da nossa natureza interna com a Natureza. Nossos ritmos voltam ao natural. Despertamos com o sol, com os pássaros. Quando a noite chega junto com o canto dos grilos, nosso corpo já pede descanso. Um dia fomos deitar às 20h30, nós três, felizes da vida. A vida moderna, especialmente da gente que vive na “cidade grande”, nos afasta cada dia mais da nossa natureza, do nosso ritmo. Não respeitamos nossos ciclos.

E nosso corpo é resiliente. Ele tenta o tempo todo nos lembrar que precisamos nos respeitar. Nos ouvir. Ele nos diz que está muito cansado e quer descansar quando ficamos resfriados. Que precisamos chorar quando ficamos com conjuntivite. Que precisamos de silêncio quando perdemos a voz. Que precisamos de escuridão, quando temos enxaqueca. Que precisamos de recolhimento quando estamos com cólica. Que precisamos de sol quando temos alergia.

Se pararmos para ouvir, nosso corpo está sempre dizendo o que precisa. Mas a pressão, as buzinas, as motos, os remédios, as dores, as preocupações são tantas que não escutamos. Nos entupimos de remédio e televisão e vamos nos perdendo de nós mesmos. Quando estava grávida da Tarsila, fui em busca de informações para ter um parto natural. Li dezenas de livros, assisti muitas palestras, vídeos no Youtube. O Renan tinha certeza que eu tinha pirado.

Mas a frase que me fez perceber que seria possível ter a minha filha sem nenhuma intervenção, foi dita pelo médico que eu estava fazendo meu pré-natal, Dr. Jorge Kuhn: “na hora do parto você não precisa pensar nada. Não precisa racionalizar. Seu corpo é perfeito. Ele sabe o que fazer. O parto é um evento fisiológico, não racional”. E assim foi. Na hora do parto, tentei não atrapalhar. Desliguei minha mente e tudo aconteceu naturalmente.

O versículo 11, de Eclesiastes 3, diz o seguinte: “tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim”. No coração de cada um de nós há o mundo todo. Da barraca dava para escutar. Espero que eu continue o ouvindo de casa.

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