Uma carta para Tarsila

Tarsila,

Minha filha querida, você vai fazer 3 anos. Certamente quando você ler esta carta vai parecer um passado distante. Mas percorremos um longo caminho até aqui. Sabe, quando eu era adolescente tinha muitas amigas que sonhavam ser mãe. Eu queria conhecer o mundo. Seu pai e eu ficamos cinco anos casados antes de pensar em ter filhos. De repente, uma vontade súbita apareceu. Quis tanto, tanto ser mãe, que logo tive que aprender um dos principais atributos da maternidade: paciência. Foram quase dois anos tentando engravidar.

Vou confessar que foi angustiante. Todo mês aquela esperança, logo cortada em vermelho sangue. E foi quando resolvemos desencanar. Há anos que seu pai e eu não tirávamos férias juntos. Então decidimos tirar “as” férias. Fomos ao melhor show de nossas vidas, do Green Day, passamos uma semana em Punta Cana e mais dez dias em Nova York. No final da viagem comecei a desconfiar do sono excessivo, do inchaço, e comprei um teste de farmácia. É filha, você é chique. Descobrimos que estávamos grávidos em Nova York. No último dia da viagem, há poucas horas de embarcar de volta.

Nem preciso te dizer que foi o voo mais longo da minha vida. Queria chegar em casa, fazer mais mil testes só para confirmar de novo. Era verdade. Você já crescia no meu ventre. Desde que escutamos o seu coração batendo, o amor só cresce. Tive a felicidade de ter amigas que tiveram um parto respeitoso e, inspirada por elas, pude buscar um nascimento humanizado para você.

A data prevista para eu completar 40 semanas de gravidez era 15 de julho de 2011. Não sei porque, mas sempre achei que eu passaria da data. Estava tão gostoso ser grávida. Mas a sua chegada, um mês antes, veio para me dizer quem estava no comando. Às 03h30 estourou a bolsa. Por volta das 11h00 fomos para o hospital. Só as 14h30 eu comecei a sentir as contrações. E às 19h29, do dia 15 de junho, mesma hora do eclipse lunar, você nasceu. Dentro da água, bem devagar. Seu pai estava ao meu lado o tempo todo. Foi ele quem cortou o seu cordão umbilical, logo que ele parou de pulsar. Era uma quarta-feira.

Me lembro que uma das primeiras coisas que seu pai disse, assim que fomos para o quarto, foi algo sobre os seus olhos. Você mal os abria, mas a gente achava que você olhava diretamente para nós e que já prestava atenção em tudo. Imagina, você tinha acabado de nascer. Mas essa sua característica já estava ali.

Dizem que a palavra nos define. Quando nomeamos algo, estamos dando vida a ele. Foi o verbo que nos fez em carne. E os substantivos, adjetivos e predicados foram formando tudo o resto que nos constitui. Por isso, pensei muito antes de escrever essa carta. Quero dizer aqui o que percebo em você, mas não quero que você se limite a ser o que eu vejo. Certamente você é muito mais. O que vou escrever aqui é só a minha visão. E o que eu desejo para você.

Como já disse, você nasceu observadora. Você presta atenção em tudo e em todos. Repara nas palavras, no jeito, no ambiente, nos cheiros. Isso faz você ter reações espontâneas. Elogia uma casa cheirosa, assim que entra. Ou fala que tá “cheirando um cheiro” quando alguém passa fumando perto de nós. Repete frases que dizemos. Só cumprimenta as pessoas depois de algum tempo as analisando. Geralmente quando elas já saíram do elevador.

Você sai na rua e comenta sobre tudo. Se o chão está molhado, se está ventando, sobre o cachorro que vai a nossa frente. É uma delícia ver como você está descobrindo o mundo. Ao mesmo tempo, isso aumenta a minha responsabilidade. Porque de tudo e todos, sou eu quem você mais observa. E imita. O faça o que eu digo, não faça o que eu faço caiu por terra. De que adianta pedir para você não gritar, se eu estou gritando com você? Me lembro que uma noite eu estava te falando como o seu corpo pertence apenas a você, que ninguém pode mexer nele sem o seu consentimento. Inclusive eu e o papai. E que por isso você não pode bater nos outros. Temos que respeitar o corpo do outro. E nos respeitar. No dia seguinte eu estava te levando para escola e, sem te avisar, fui limpar o seu nariz. Você tirou a minha mão e olhou sério para mim e disse: mamãe, cada corpo é de cada um, não mexe no meu nariz, eu não quero.  Lição aprendida.

Por ser observadora, você também é reservada. Nunca foi daquelas crianças simpáticas, que sorriem para todo mundo. Pelo contrário. As pessoas precisam te conquistar. Seu sorriso espontâneo é um prêmio que nem todos recebem. O que você tem de sobra é empatia. Você sabe quando alguém está triste, doente. Sempre se aproxima, age com carinho. É um doce.

Em festas infantis, em geral você fica brincando sozinha. Longe dos brinquedos mais disputados. Sem precisar de outras crianças para se divertir. Mas se algum amigo ou amiga se aproxima, aí você fica mais feliz. Mas tem que ser alguém que você goste. E quando você está com alguém que ama, brincando, não precisa de mais ninguém. Desde pequenininha você me expulsa do quarto se está brincando com alguma das suas tias/tios, ou avôs/avós. Fala: sai mamãe, quero brincar só com ele/ela. Para você é sempre dedicação exclusiva.

Tem algumas características que certamente você herdou do seu pai. A primeira é que você é muito engraçada. Mas não é uma graça boba, é meio cínica. Você fala coisas divertidíssimas com uma cara de séria. Tira sarro da gente. Faz um drama. Aliás, você adora atuar. Assiste aos filmes imitando os personagens. Por isso que a mamãe e o papai não deixam mais você assistir a Turma da Mônica, desde que você começou a querer falar “elado” e a bater com o coelho. A TV é controlada, mas quando pode, você gosta bastante de ver.

Outra coisa que, felizmente, você herdou do papai é a musicalidade. Ele diz que você canta super afinado. Você brinca de tocar o seu violão, piano. Eu não sei cantar, nem tocar, mas amo música. Muito. Por isso nós duas escutamos muita música juntas. Eu acabei de me lembrar de uma coisa. Quando tinha uns 16 anos eu fui a uma loja de música comprar um CD do Ira! (é filha, a gente comprava CD). E vi um CD da “Arca de Nóe”, do Toquinho e do Vinícius de Moraes. Quando eu era criança, adorava esse disco (é filha, na minha época era vinil). Eu comprei os dois CDs. Comprei pensando que, se um dia eu quisesse ter filhos, ia querer que eles escutassem essas músicas. E hoje você adora cantar junto a música do Pato, da Casa…

Mas tem uma coisa que a gente sempre faz quando estamos sozinhas em casa. A mamãe coloca as músicas preferidas dela bem alto e nós dançamos muito. Pode ser do Queen, Green Day, David Bowie. Não importa. A gente se diverte. Dançamos do nosso jeito. Você adora. As vezes fica até com soluço de tanto rir. Você ama dançar. Uma vez estávamos almoçando em um restaurante, você estava comendo sozinha. De repente começou a tocar um pagode. Você deixou a colher de lado e começou a dançar. No ritmo.

Tem outra coisa que você gosta bastante: histórias. Você adora que a gente leia e conte histórias para você. As vezes precisamos contar a mesma história, umas três vezes por noite. Daí você pega o livro e lê as histórias para nós. Em algumas páginas você repete com tanta exatidão o que dissemos que parece até que você está lendo de verdade. Nessa hora quero te morder.

Você também é vaidosa. Muito. Sinceramente não sei de onde veio tanta vaidade. De mim é que não foi. Você passa mais batom do que eu. Não pode ver uma maquiagem que já começa a passar. Quer fazer as unhas sempre. É muito charmosinha. E tem o seu cabelo. Ele é lindo, todo enroladinho, fino. Mas demora para crescer, como o da mamãe demorou. E você fica um pouco frustrada com isso, já que suas amiguinhas estão com os cabelos longos. Agora que eles cresceram um pouco, você tem muito orgulho em fazer rabinhos, deixar cair no rosto.

Como você nasceu prematura, sempre foi pequenininha. No começo eu me preocupava, depois percebi que é o seu tipo. Porque você pode ser pequena, mas é forte e brava como um touro. Ninguém a convence facilmente a fazer o que não quer. Te fazer mudar de ideia requer muita saliva e paciência. Se tem uma coisa que você sabe fazer desde neném é mostrar a sua vontade. E não seguir a vontade dos outros sem uma explicação lógica. Fico feliz por você ser assim.

Porque uma das coisas que eu mais desejo é que você seja livre. Que nenhuma amarra te impeça de viver plenamente. Nem a religião, nem as regras dos outros que querem ditar o que é bonito, o que é feio. O que é certo ou errado. Quero que você encontre as respostas sempre dentro de você, onde moram Deus e o infinito. Você, desse jeitinho que você é, é perfeita. Porque você é única.

Por isso, nunca se meça pelos outros. Não queira ser algo que você não é. Se ame e se aceite. Seu corpo, seu cabelo, sua personalidade. Porque quem vive plenamente, quem é honesto consigo mesmo, sempre consegue respeitar o outro e as escolhas que são diferentes das nossas. Afinal, se somos todos únicos, somos todos diferentes uns dos outros. O seu jeito de amar não vai ser igual ao de ninguém. Então não impeça ninguém de se amar. O seu jeito de ver o mundo não vai ser igual ao de ninguém. Então respeite a visão que cada um tem. O seu jeito de expressar sua beleza e sua dor não vai ser igual ao de ninguém. Então respeite a arte de cada um.

Desejo que você lute para que todos tenham os mesmos direitos. Que você seja uma voz pacífica e doce. Que você não tenha medo de errar. Que você não tenha medo de admitir que errou. Que você aprenda que a vida é assim mesmo, densa, muitas vezes injusta, triste, mas que ela também pode ser bonita. E que não há maior beleza nesse mundo do que quando duas vidas se encontram e são transformadas. E foi isso que você fez por mim. Você me transformou em mãe. E transformou um casal em uma família. Você tocou o meu coração de uma maneira totalmente nova e diferente para mim. Por isso sou grata. Eu te amo. Um amor que começou pequenininho e que hoje se expande no infinito.

Seja feliz. Trilhe seu caminho, nem que para isso você tenha que levar um facão para abrir a picada. Nem em todos os momentos vou poder estar ao seu lado. Mas espero estar sempre no seu coração.

Sua mãe, Ana Caroline.

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8 comentários em “Uma carta para Tarsila

  1. Ana, que carta linda! Me emocionei com suas palavras! Parabéns para a Tarsila e para vcs que são uma família linda!!!! Grane Beijo, Cris

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