Carta ao que não nasceu

Para você que existiu tão brevemente,
No dia das mães eu sabia que estava grávida de novo. Não tinha exame, não tinha nada. Só meu coração me dizendo. Não contei para ninguém. Fiquei feliz secretamente, o que é uma delícia as vezes. Nós estávamos viajando em família e várias vezes a Tarsila fazia carinho ou beijava a minha barriga. Uma vez eu perguntei o porquê e ela disse que era porque tinha um neném dentro.
Voltamos para SBC e fiz um teste. Positivo. Fiquei tão ansiosa quanto da primeira vez. Era uma gravidez muito desejada, agora não só por mim e pelo Renan, mas também pela Tarsila, que estava pedindo um irmão ou uma irmã. Ou os dois juntos. E mais um cachorro e um gato. No último domingo de maio, um dia bem frio, eu tive um sangramento. Pequeno. Mas acendeu o alerta. Fui ao hospital e no ultrassom me disseram que ainda estava muito no início da gravidez e que por isso não dava para te ver direito e nem escutar seu coração. Só vi o saco gestacional e algo que parecia um embrião.
Estranhei, porque pelas minhas contas você já teria 7 semanas. Mas como a matemática da maternidade não é exata, esperancei que estaria tudo bem. Uma semana depois voltei. Não esqueço da cara do médico que estava fazendo ultrassom. Ele estava tão desconfortável e visivelmente não queria ser o mensageiro da má notícia. Pediu que eu conversasse com o plantonista. Eu nem precisava falar com ele. Já sabia que você tinha decidido parar na 7ª semana. O médico disse que isso era normal, que cerca de 25% das gestações não evoluem. Que muitas vezes não dá para saber a causa. Pode ser má-formação, algum trauma e blá-blá-blá.
Fiquei pensando naquela palavra: normal. Achei tão inadequada. Para mim não era normal eu nunca te conhecer. Foi só a primeira tentativa frustrada de me consolar. Prudentemente nós tínhamos decidido demorar para contar para as pessoas sobre a sua chegada. Só nossa família e um casal de amigos sabiam. Então foram poucas as ligações para contar que não, eles não seriam avós, tios, tias, de novo. Pelo menos não agora. E família é assim. Se alegra junto. Se entristece junto. Tenho certeza que cada um sentiu a sua perda. Sabe, a gente faz planos malucos quando sabe que está grávida ou que alguém que amamos engravidou. Já imaginamos vocês nascidos, como serão, os nomes. Por isso sei que cada um está passando por um luto por você. Que não nasceu.
E eles, que me amam, tentam me consolar. Porque de todos, eu sou a única pessoa que ainda te carrego aqui dentro. Ainda terei a dor de te ver sair. O sangue vai ser nosso. Vai me purificar e te permitir partir, fisicamente. Eu sei do carinho e da sinceridade de cada palavra que foi dita para mim. Mas tenho que dizer, elas não me consolaram. Só me trouxeram mais perguntas. Deus sabe todas as coisas. Essa foi a mais dita. Tenho certeza que Ele sabe. Mas eu não. E eu, euzinha aqui, que estou sofrendo agora. Eu não sei se saber o motivo de você não ter vivido aliviaria a dor. Talvez não.
A natureza é sábia. Outra frase dita para mim que concordo plenamente. Mas se a sabedoria está em eliminar o que pode não ser saudável, fico com duas dúvidas: Porque há tantas crianças com necessidades especiais no mundo? Será que eu não daria conta de cuidar, amar, maternar uma criança assim? Acredito que nenhuma mãe deseje ter um filho com necessidades especiais. Sempre pedimos saúde. O fato é que nem sempre isso acontece e que não problema algum nisso. Há milhares de pais e mães movendo o mundo para cuidar e tratar de seus pequenos, mesmo com os piores prognósticos. E amando essas crianças com o amor que transforma tudo.
Eu não sei o que vai acontecer agora. Decidi por sofrer um aborto natural, não quis me submeter à curetagem. A médica disse que pode demorar um mês. Você já não está mais aqui. Habitou meu corpo por apenas 7 semanas. Alguns vão pensar, tão pouco tempo. Não sei porque ela está sofrendo. É que eles não sabem o que nós planejamos fazer juntos. Eles não sabem os sonhos que tive enquanto você ainda estava aqui. Eles não sabem que sempre serei sua mãe, mesmo que você nunca tenha nascido.
Essa noite a sua irmã teve muitos pesadelos e foi dormir com a gente. Quando acordou hoje cedinho, sentou em cima do meu travesseiro, segurou a minha cabeça e cantou uma música que dizia assim: “papai do céu te agradecemos por todos aqui. Os amigos, a família e quem cuida de nós”. Depois me fez um carinho e me deu um beijo.
Mais tarde a peguei no colo. Ela estranhou porque há duas semanas não a pegava, pois estava de repouso. E perguntou se eu podia a pegar. Eu disse que sim. E ela perguntou por você: e o neném pequenininho que está aí dentro? Respondi que você já não estava mais. Ela fez uma cara triste e falou que queria muito um irmãozinho ou irmãzinha. Eu falei que ela ainda terá, mas não agora. Ela sorriu e pediu para passar batom. Vida que segue. A minha vai ficar mais um tempo aqui parada. Até que a gente se despeça.
Sua mãe.
03 de junho de 2014.

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