Meus companheiros trosmons

Um dos livros favoritos da minha filha é o Chapeuzinho Amarelo, do Chico Buarque. Apesar de ter sido lançado um ano antes do meu nascimento, em 1979, eu não lembro de ter lido na minha infância. Com desenhos do Ziraldo, o livro conta a história de uma amedrontada menina com chapéu amarelo, “que de todos os medos que tinha, o medo mais que medonho, era o medo de um tal lobo”.
O medo a paralisa de tal modo que ela não faz mais nada. Não come, não brinca, não dorme. E de “tanto pensar no lobo, de tanto sonhar com o lobo, de tanto esperar o lobo, um dia topou com ele”. Sempre que a Tarsila pede para eu ler, isso quer dizer todos os dias, eu fico pensando na minha vida.
Um dia, há muitos anos, estava conversando com uma grande amiga sobre a vida. E falávamos como a gente sempre quer fugir do problema. De como é difícil encarar o medo. Assim vamos vivendo, nos sabotando, nos enganando. Jogando os medos para debaixo do tapete, achando que ninguém está vendo o quanto ele está ficando alto e sujo. Mas então a realidade se impõe. E ela é inexorável. Sempre vem. Chega implacável. Podemos até fingir surpresa, mas sabemos que somos como a Chapeuzinho Amarelo. De tanto evitar nossos lobos, acabamos encontrando.
Uma pessoa a quem admiro muito postou essa semana uma frase de Carl Jung: aquilo a que resistimos, persiste. Enquanto escolhemos não olhar a nossa sombra ela vai continuar lá. E vai crescer. Nos roubar a alegria, a espontaneidade, a vida. Eu tenho medo da minha sombra. E fugi dela por muito tempo. Mas a maternidade trouxe a minha sombra para ser minha companheira. Todos os medos, os dizíveis e os indizíveis, que moram em mim, saíram debaixo do tapete.
E estou há três anos olhando para eles. No livro do Chico, quando a Chapeuzinho encontra o lobo ela o enxerga como ele é: um lobo. E ao encará-lo ela vai “perdendo aquele medo. O medo do medo do medo que tinha do lobo. Foi ficando só com um pouco do medo do medo do lobo. Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo”. O lobo não se conforma que perdeu seu poder sobre a Chapeuzinho. Esperneia e grita seu nome de lobo tantas vezes que ele vira bolo. E ela já não está nem aí para ele, tá brincando de amarelinha com os amigos. Por fim, ela transforma cada medo que tinha em companheiro: “o raio virou orrái, barata é tabará, a bruxa virou xabru e o diabo é bodiá”.
Me encontro nesse momento. Olho cada medo, cada sombra. Dou nome. Desnudo. Não escondo mais de mim. Assumo cada um deles. Eles são parte de mim. Preciso agora aprender a transformar esses monstros em meus companheiros trosmons.

medo

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