Não quero ser exemplo de nada

Eu sou filha de pastor. Essa escolha do meu pai afetou enormemente a minha vida. Muitas vezes me sentia o príncipe Harry. Todo mundo de olho para ver o que eu iria aprontar. Você já nasce com um selo e um peso para carregar: ser exemplo. Tem que ser a mais comportada, a mais obediente, a que participa de todas as atividades, a que não sai correndo no meio do sermão, a que não bebe santa ceia escondida.

É um saco. Já apanhei por ficar correndo sem parar enquanto meu pai pregava. Já levei bronca por ter rasgado a meia calça antes de chegar à igreja (pai do céu, quem coloca meia calça em criança?!). Incontáveis vezes fingi estar dormindo na hora que o culto estava acabando só para não levar bronca ou apanhar. Eu detestava ser filha de pastor.

Para piorar a minha situação eu sou a irmã mais velha. Se você é o mais velho entre os irmãos, sabe bem do que estou falando. “Não faz isso, você tem que dar exemplo para sua irmã”. “Você é mais velha, tem que ter mais paciência”. “É você quem tem que ceder, ela é sua irmãzinha”. Coitada da Bel, descontei muito nela a minha frustração por ouvir sempre essas frases dos meus pais.

Não estou aqui querendo culpar meus pais por nada. Longe disso. Eu sei do amor e da dedicação com que eles me criaram, fazendo o melhor que eles podiam naquele momento. E da vocação pastoral que meu pai tem, ela só não era minha também. Estou contando essas coisas porque tenho pensado muito nessa questão de ser exemplo. Essas frases e situações ficaram por muito tempo reverberando na minha vida e eu cresci achando que deveria ser exemplo mesmo.

E isso fez de mim uma pessoa não muito legal. Porque eu entendia que exemplo era ser perfeita, obediente, ajustada aos padrões dessa sociedade doente em que vivemos. Então eu me cobrava muito em ser a melhor. Não dava “trabalho”, estudava bastante. Mas não me permitia errar. Até hoje tenho um problema em assumir quando erro. É um exercício diário. O maior problema não era esse: querer ser perfeita. A questão principal era que eu usava a minha suposta vida “perfeita” como régua para medir os outros.

Para mim isso é o que há de pior no “exemplo”. Ele quer ser a verdade para todos. Se alguém tinha algum comportamento, atitude, sentimento que eu não compreendia, o julgamento era rápido e a condenação certeira. Porque a única forma “correta” de viver era a minha. Afinal, eu era um exemplo. Esse sentimento nos torna mesquinhos, julgadores, críticos, reprovadores, moralistas. Nos torna uma pessoa ruim. Estamos sempre prontos a palpitar na vida alheia, a oferecer as soluções e criticar quem pensa/faz diferente. É a patrulha. Para usar algo que aprendi na bíblia: é olhar o cisco no olho do outro e não enxergar a trave que está no seu.

Ao longo dos meus 35 anos fui quebrando o poder dessa palavra sobre a minha vida. Durante um período da adolescência rompi bastante com esses laços. Depois, fui aos poucos percebendo esse caminho pernicioso que é o de quem se acha exemplo e quer ser medida para a vida dos outros. A própria vida foi me ensinando e dando uns tombos para eu ver que de perfeita não tinha nada. Ainda bem.

Agora estou grávida de novo. Tarsila será a irmã mais velha. Ela mesma já escutou de um monte de gente as pérolas de sempre: “agora você vai ter que ser exemplo para seu irmão”; “você vai ter que ensinar para ele tudo”. E eu estou aqui batalhando para não passar isso para ela. Ao mesmo tempo sei que criança aprende pelo exemplo. Aprende a falar nos olhando falar. Aprende a andar ao nos ver andar. As palavras pouco importam para elas. Nossas atitudes as educam.

Para mim esse exemplo é diferente. Não é o da perfeição. É o da coerência e da incoerência. A minha fala tem que ser condizente com o que eu faço. E nas muitas vezes em que sou contraditória, eu quero que ela saiba que não tem nada mais humano do que isso: mudar de opinião, errar e pedir desculpas. Não quero ser exemplo de mãe, de esposa, de jornalista, de profissional, de cristã. Quero ser exemplo de gente. Na verdade quero ser apenas eu mesmo.

E quero que meus filhos saibam que a vida de ninguém pode ser medida com a régua de outra pessoa. Que cada um escolhe e faz o seu caminho, dentro das suas possibilidades. Que todo mundo erra. Que criança nenhuma tem que ser exemplo de nada, nem usar meia calça. Que eles saibam que eu mudo diariamente, tenho um monte de defeitos e sou esquisita. Mas amo cada um deles, e a mim mesma, com amor infinito, do jeitinho que somos.

Obs.: uma das coisas que mais me irritavam no fato do meu pai ser pastor era que ele contava coisas da minha vida no púlpito, para todo mundo, sem me consultar antes. Ah! Como a vida dá voltas! Ainda bem que entre meus defeitos não está ser vingativa….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s