Ernesto – seu relato de parto

Relato de parto Ernesto

Acabei de rever o vídeo do seu nascimento. É um filme bem cru, sem edição, de uma câmera que ficou em cima da mesa filmando tudo. Dá para escutar as pessoas falando coisas corriqueiras, sua irmã andando de um lado pro outro, seu avô tirando foto, as parteiras combinando algo, seu pai rindo, a doula jogando água quente em mim, sua avó colocando pano gelado na minha cabeça para aliviar o calor. Tão trivial. A não ser pelo fato que aquele era um momento sagrado.

Eu sei exatamente o dia em que você foi concebido: 08 de setembro de 2014. Era uma noite de super lua, quando esse satélite fica mais próximo da Terra. Eu me senti como uma loba. Foi assim a gravidez toda. Uma vez li que as mulheres que têm a Lua em Libra se sentem plenas com a maternidade. Eu sou assim. Me achava uma das mulheres mais lindas do mundo, completa, inteira.

Foi uma gravidez tranquila. Pouco enjoo, mais azia (haja chupar gelo!), muito sono. A barriga ficou enorme, pontuda. Escutei a gestação toda: nossa, esse menino vai ser grande. Pensando agora, até que nesse palpite eles acertaram. A sua irmã nasceu prematura, com 35 semanas de gestação. Ela quis ofuscar a lua e decidiu nascer um mês antes, no meio de um eclipse lunar. Veio cheia de saúde e vontade. Mesmo assim eu passei a sua gravidez inteira desejando que você nascesse a termo.

Quando completei 36 semanas me senti aliviada, faltavam apenas 7 dias para você ser considerado um bebê “pronto”. Era uma terça-feira. Eu estava terminando de editar o meu primeiro documentário. Finalizando algumas coisas para o doutorado. Mas os sinais começaram a chegar. Dona Amazonina, minha avó do coração me ligou. Falou que tinha pensado em mim e na sua chegada, fez uma oração pelo seu parto. Algumas pessoas queridas começaram a me mandar mensagens.

Eu estava me sentindo muito solitária, questionando muitas coisas da minha vida. Eu sinto que essas pessoas foram anjos, vieram anunciar a sua chegada, preparar o meu espírito, fortalecer a minha alma para o que iria acontecer.

Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais.

Na quarta-feira eu peguei sua irmã na escola e resolvi fazer uma despedida de barriga. Tinha comprado umas tintas especiais, para pele. A Tarsila se divertiu pintando a minha barriga. Ficou linda. Nós duas juntas celebramos esse momento, a dádiva e o privilégio de gestar. E de se tornar irmã.

Quinta-feira, 06h30. Tarsila vai me acordar, como sempre. Me levanto para ir ao banheiro e sinto. Mais uma vez a bolsa estourou. Antes do tempo. Tempo de quem? Era Chronos ou Kairós? Os dois. Era o momento oportuno e supremo. E o tempo contado: 36 semanas e 2 dias. Desde Fiat Lux o tempo de Deus não é o tempo dos homens. Por isso, pelas contas das horas dias semanas, você era prematuro.

Acontece que eu já tinha planejado tudo. Você nasceria em casa. Eu era uma gestante de baixíssimo risco, com parto natural anterior, pré-natal bem feito. Tudo o que você tinha que fazer era ficar no forno até as 37 semanas. Aparentemente meu útero tem prazo de validade e o meu fermento é bom. Meus filhos ficam prontos antes, dão festa de despedida e estouram a bolsa para avisar que estão chegando.

Demorei para aceitar que o líquido que escorria era a bolsa. Quando me conformei pedi para seu pai não ir trabalhar. Eu não sabia como as coisas iriam se desenrolar. Mandei mensagem para a médica, para as parteiras, para a doula. A parteira me ligou. Uma das coisas que eu mais admiro nela é a sua capacidade de ser direta, assertiva e doce ao mesmo tempo. Ela logo deu a real: me falou que existem inúmeros motivos para a bolsa estourar, que podia ser que você estivesse pronto ou poderia ser uma infecção. Falou dos riscos, disse que me apoiaria em qualquer escolha. E me deixou decidir o caminho.

Essa coisa de assumir a própria vida, suas escolhas é um troço que dá trabalho. Porque sabemos que somos os únicos responsáveis por nós mesmos. Quem vai por essa trilha estreita não consegue dormir se tentar jogar a decisão no colo de outra pessoa. Conversei com o seu pai, decidimos juntos esperar até sexta-feira pela manhã. Se eu não entrasse em trabalho de parto, iríamos para o hospital.

Dormi rezando por contrações. Acordei como se nada houvesse. A ansiedade aumentou, diante da incerteza temos o ímpeto de correr para o conhecido. Seu pai queria ir para o hospital. Eu fui levar sua irmã à escola e na volta parei num parque. Sempre vou para lá quando preciso pensar. Sentei em um banco. Pedi sabedoria para discernir até onde meu desejo de dar à luz em casa era algo possível. Pedi serenidade caso precisasse ir ao hospital. Quando me levantei vi uma árvore linda. Ela sempre me remeteu à vida, placenta, raízes. Senti em meu coração que você nasceria em paz.

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Tu vens, tu vens. Eu já escuto os teus sinais.

Voltei para casa, conversei com seu pai. Ele já tinha falado com sua avó e pedido para ela vir de Piracicaba para ficar com a sua irmã mais velha. Falei de novo com a médica obstetra, com a parteira. Escutei todas as informações. Conversei com a doula. Conversei com minhas amigas de parto que me incentivaram a esperar. Como eu não tinha nenhum sinal de trabalho de parto, só a bolsa rota, precisava dar um incentivo para você vir.

Tomei chás, andei muito. Na sexta-feira a noite uma das parteiras veio até em casa. O anjo em pessoa. Me examinou, escutou seu coração. Nos acalmou dizendo que estava tudo muito bem, que não precisávamos nos preocupar. Tínhamos o tempo estipulado pelo Ministério da Saúde de 72 horas de bolsa rota antes de induzir. A sua avó já estava em casa. Ficamos todos mais tranquilos. Seu pai e eu decidimos esperar até domingo pela manhã, quando esse tempo cronológico das 72 horas se cumpriria. Se você não nascesse até lá, iríamos para o hospital.

A doula ficou em casa preparando muitos chás e conseguiu encontrar uma acupunturista que veio em casa sexta, às 23h00. Enquanto todos dormiam eu fiz acupuntura no sofá da sala. Elas foram embora e eu fiquei acordada. Pedi mais uma vez que você viesse com saúde e sereno. Quando quisesse. Manhã de sábado. Nada. Contrações muito espaçadas, nada doloridas. Era sábado véspera do dia das mães. Seu avô logo chegaria para passar o final de semana com a gente.

Abro o facebook e escuto uma mensagem. Era minha amiga de adolescência e quem me apresentou ao mundo do parto com respeito, Anna, cantando uma música com sua voz doce e suave.

O amor do Senhor é que o que dividiremos. Porque todo esse amor não cabe em mim. Eu quero é lhe dizer que Deus gosta de você, seja qual for a situação.

Eu estava em paz. Já não me importava mais onde. Me importava que você viria. E que já era amado. Seu avô chega, vê as tralhas do parto na sala e então contamos para ele dos nossos planos de você nascer ali naquele lugar. Mas dizemos que talvez nada daquilo seria usado. Vamos almoçar no shopping, seu pai, Tarsila, eu e seus avós maternos. Eu precisava caminhar e estava com desejo de comer carne.

Duas da tarde a parteira me liga. Quer saber como estamos. Conto que estou no shopping, que as contrações estão bem relax. Voltamos para casa e dormimos. Todo mundo tira um cochilo, inclusive sua irmã que nunca dorme a tarde. Às 16:30 acordo com uma contração forte. Mudo de posição. Outra. Viro de lado de novo. Outra. Levanto da cama. Chamo minha mãe e digo: pode avisar todo mundo, vai nascer.

As contrações chegam alucinantes. Quase não há espaço entre uma e outra. Já vou para o banheiro, entro debaixo do chuveiro, sento na bola de pilates. No começo sinto um pouco de culpa por estar gastando tanta água. Isso dura meia contração. Logo seu pai entra no box e mais uma vez vem ser meu apoio e meu porto seguro na hora do parto. Aperto as mãos dele. Urro. Não era um grito. Era um canto, se loba pudesse cantar.

A Tarsila acorda, entra no banheiro, vê a cena da mãe sentada na bola de pilates, debaixo do chuveiro ligado e o pai de roupa dentro do box. Eu explico que o irmão dela está chegando e que é preciso cantar para chama-lo. Ela então começa a gritar junto comigo nas contrações. E se diverte. Percebo uma movimentação e tensão no ar. Como encher a piscina, cadê o plástico, cadê a mangueira. Renan quer sair para resolver essas coisas. Não deixo. Seu avô assume.

A doula foi a primeira a chegar. Logo depois a parteira anjo. Enquanto isso as dores só aumentavam. Tinha esquecido o quanto nosso corpo precisa se alargar para dar passagem ao outro que há em nós. Nos breves intervalos entre uma contração e outra eu pedia forças para aguentar. Chega a outra parteira. Não a vejo, só a escuto. Me sinto segura. Sabia que estava rodeada por pessoas capacitadas, treinadas, competentes.

A Tarsila se tornou a melhor doula possível. Me trazia água, biscoito, alegria. Ela estava empolgadíssima com a casa cheia, com a movimentação, com a sua chegada. A todo tempo escutava a sua voz perguntando como poderia ajudar. A piscina fica pronta. Saio do chuveiro e vou direto para lá. Que alívio. Mas começa a me bater um medo do processo ser demorado. Pergunto para uma das parteiras se falta muito. Ela me diz docemente que está tudo indo muito bem, para eu confiar, logo ele estará aqui. Eu peço para ela ficar ao meu lado um pouco porque me dá paz.

Escutam seus batimentos. Tudo bem. A dor lancinante diminui. Vontade de fazer força. Será que já é a hora? Parteira fala que faltam dois centímetros. Quatro minutos depois você nasceu. Sei disso porque vi o vídeo. Sua irmã tinha ido pegar uma garrafinha de água, sua avó estava na cozinha, seu avô no ipad, doula jogando água na minha barriga, uma parteira ajeitando nosso quarto para quando você nascesse, seu pai abraçado comigo me dando suporte. Então a parteira diz bem calmamente: vai nascer, respira fundo e faz força bem devagar. Ela pede para eu soltar os braços do seu pai para te pegar.

Tudo isso eu sei porque vi o vídeo. O que eu lembro é de sentir você girando e se encaixando. Sei que em poucas contrações vou te ter em meus braços. Sinto calor, minha pressão cai. Sinto medo de não conseguir fazer força na hora do expulsivo. Em duas contrações você estava ali. Tudo tão calmo, sereno. Você nasceu todo amanteigado, cheio de vérnix, apenas duas horas depois das contrações terem começado. Eu te peguei, coloquei sobre o meu corpo, senti o seu calor. Você chorou. A Tarsila veio ao meu lado e passou a mão na sua cabeça e depois bateu palmas de alegria. Eu cheiro a sua cabeça. Melhor perfume do mundo, cheiro de céu, de anjo recém-chegado.

Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor nas coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra, sagrada
E que baralho, que lambança
Saltou do meu ventre e parecia dizer
“É sábado gente! “

Minutos depois chega a pediatra. Você nasceu muito saudável. Apgar 9/10, 2,930kg, 47 cm, às 18h42 do dia 09 de maio de 2015, um sábado, com 36 semanas e 4 dias de gestação. Um falso prematuro. A pediatra explica que têm mulheres que são como eu. Os bebes ficam prontos antes. Você mama em meu peito enquanto esperamos a placenta sair. Ficamos o tempo todo no quarto. Sua irmã fica super nervosa quando vão cortar seu cordão umbilical, ela quer te proteger pois acha que estão te machucando. Eu tomo um banho, como um açaí enquanto a equipe, seus avós e seu pai comem pizza. Todos conversam animadamente na cozinha. Eu e a Tarsila ficamos te cheirando no quarto.

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Aos poucos a casa fica em silêncio. Tarsila dorme, a equipe vai embora, seus avós dormem. Ficam nós três. Eu, você e seu pai. Você começa a chorar. Seu pai diz: a gente esquece que a primeira noite dura um mês e o primeiro mês dura um ano. Damos risada. Adormecemos. Somos acordados por sua irmã. É domingo, dia das mães. Seus avós paternos, tias e tios chegam. Você não tem nem 24 horas e está em casa, rodeado por todos que te amam. Ouço risadas, conversas. Cheiro sua cabeça e agradeço. Tudo foi diferente do que eu tinha planejado e sonhado. Ainda bem.

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