Sobre o golpe, feminismo e “O Começo da Vida”

Sobre o golpe, feminismo e “O Começo da Vida”

Quis o destino que eu assistisse ao filme “O Começo da Vida” justo hoje, dia 12 de maio de 2016. Data que meus filhos vão aprender na escola como o dia em que uma presidenta do Brasil — a primeira mulher eleita — precisou deixar o cargo por causa de um golpe. Graças à plataforma do VideoCamp* pude ver o filme em casa, com mais seis amigas queridas, ainda que o filme tenha estreado apenas na semana passada nos cinemas.

O Começo da Vida fala da importância da primeira infância na formação do ser humano. Tanto do ponto de vista afetivo e amoroso, como dos valores, capacidade, conhecimento, desenvolvimento psíquico. Somos aquilo que herdamos geneticamente de nossos pais e também somos o resultado do meio ambiente em que crescemos. O filme traz depoimentos de cientistas, pesquisadores, ativistas, educadoras. As informações científicas e técnicas são permeadas por depoimentos de pais e entrevistas singelas com as crianças.

Um dos entrevistados diz que o afeto é como uma fita isolante nas conexões dos neurônios. O amor fixa cada conexão feita. Outro entrevistado fala da importância do pertencimento para as crianças: saber que fazem parte de uma história, de um lugar. Também aprendemos sobre a importância do brincar livre, do contato com a natureza, do poder da imaginação e da criação que as crianças trazem ao mundo. De como elas não são uma tábua rasa. Elas são uma esponja absorvendo tudo o que acontece ao seu redor. Um economista afirma que a cada US$ 1 investido numa criança — ou em quem cuida dela — há um retorno de US$ 7 para quando ela se torna um adulto. Uma criança bem cuidada não se torna um peso para a sociedade, no futuro gera renda e trabalho. É um investimento.

O filme tem cerca de 1h30 de duração e foi filmado em nove países. Poderia ficar aqui escrevendo sobre cada ponto. Cada fala. Mas quero escrever sobre o que mais me tocou no filme. Foi um momento curto, talvez um dos assuntos menos trabalhado de forma clara no longa. Mostra uma moradora de uma favela no Brasil cuidando de sua filha. A menina que deve ter uns 3 anos é uma graça, sapeca. A mãe conta que gostaria de poder se dedicar mais à filha, passar mais tempo com ela, mas que precisa deixa-la com outras pessoas para ir trabalhar. Vemos a mãe deixando a pequena na escola bem cedo e se dirigindo ao trabalho. O trabalho dela é ser babá. Ela não pode cuidar da sua filha para cuidar do filho de outra mulher.

Ver aquela mulher — negra — pegando no colo aquela criança que não era sua me cortou o coração. Na hora veio a lembrança de tantas amas de leite que não puderam alimentar seus filhos para cuidar dos filhos do patrão. De tantas crianças pobres que passam o dia e a noite longe de suas mães enquanto elas se tornam a “segunda” mãe de outras. De tantas Jéssicas e Fabinhos.

Eu sou privilegiada e como tal preciso me desconstruir o tempo todo para não reproduzir o racismo, machismo e elitismo que parecem perenes na nossa sociedade. Uma das desconstruções mais importantes que tenho feito é justamente essa: perceber que, em sua grande maioria, as mulheres de classe média e alta só puderam ser “livres” às custas da exploração de outra mulher. Fizemos faculdade, conseguimos emprego, trabalhamos muito, viajamos, publicamos, crescemos profissionalmente. Enquanto isso uma outra mulher lava a nossa roupa, limpa nosso banheiro, cuida de nossos filhos.

Que feminismo é esse que dá liberdade e uma maior possibilidade de luta por igualdade para algumas mulheres mas mantém outras na mesma opressão de sempre? Não vou entrar na discussão aqui sobre “gerar emprego”. Sei que ser empregada doméstica, babá, diarista é um trabalho digno como qualquer outro. Também sei que graças a uma enorme luta de classe hoje essas trabalhadoras passaram a ter direitos como os outros trabalhadores sempre tiveram. Mas sei que quase nenhuma mulher — tendo a possibilidade de escolher e a oportunidade de estudar — opta por essas profissões que tanto carregam do nosso casa grande e senzala.

Também não estou dizendo que as mulheres devem sempre largar seus projetos pessoais, profissionais, estudantis para cuidar da sua casa e seus filhos sozinha. É preciso repensar as relações conjugais e suas divisões de tarefas. É preciso repensar as relações trabalhistas e a carga horária a que somos submetidas. É preciso repensar porque precisamos que outra pessoa limpe a nossa sujeira. Mas não é sobre esses tópicos que quero falar. Quero falar sobre o feminismo.

O feminismo que aprendo diariamente e que me representa precisa incluir em sua discussão e ativismo a questão da maternidade, de classe e de raça. Não há luta por igualdade de direitos sem esse corte. Isso fica claro no filme em diversos momentos. As mulheres entrevistadas e que estavam em situação de vulnerabilidade, pobreza e negligência eram, em sua maioria, negras. Todas pobres. Seja aqui ou na África ou na Índia. O filme fala sobre a importância de se apoiar quem cuida da criança. Um dos entrevistados diz o seguinte: não é uma instituição que cuida de uma criança. Não é um programa que cuida de uma criança. É uma pessoa. Na maior parte das vezes uma mulher. Quem está cuidando dessas mulheres que vivem no limite da miséria? Como elas vão cuidar de seus filhos? Mesmo que não falte amor ou disposição.

Então eu volto ao começo do meu texto. Quis o destino que eu assistisse ao filme hoje. Dia do golpe. Entre tanto que foi dito, por ambos os lados, há um assunto que sempre aparece: o Bolsa Família. Eu sou uma entusiasta desse programa. Qualquer pessoa que olha os resultados comprovados que ele trouxe teria o mesmo sentimento que o meu. São 11 milhões de famílias beneficiadas. Famílias que viviam na extrema miséria. Mais de 90% das beneficiárias titulares são mulheres, 68% delas são negras. Isso quer dizer que mulheres que não tinham autonomia, muitas vezes vítimas de relacionamentos abusivos, puderam pela primeira vez decidir como se gastaria o dinheiro da família.

Diversas pesquisa demonstraram que o dinheiro vai para alimentação, educação e vestuário infantil. Note-se que são R$ 77 por família, por mês. E para receber esse dinheiro a família precisa ter renda mensal de R$ 77 por pessoa — extrema pobreza. Você que está lendo esse texto provavelmente gasta isso num almoço de fim de semana. Ou no cinema. A contrapartida é manter os filhos na escola e frequentar os serviços de saúde: vacinação, cuidados básicos médicos.

Apenas isso já foi o suficiente para tirar mulheres de situações de risco, oferecer um futuro para seus filhos. Em pesquisa recente demonstrou-se que as mulheres beneficiarias do Bolsa Família têm, em média, menos filhos do que a média nacional. Muitas já deixaram o programa por terem ascendido socialmente. Outras se divorciaram de seus maridos violentos.

Em muitos discursos, Dilma e seus apoiadores falam sobre como o novo governo — golpista — é uma ameaça a esse programa. Temer, em sua primeira fala como presidente em exercício, afirmou que esses são direitos adquiridos e que não vai mexer nos programas como Bolsa Família. Mas isso não basta. Temos que ir além. O Bolsa Família é excelente, mas apenas uma parte do trabalho que precisa ser feito de suporte a mulheres e família pobres.

Você deve estar me achando louca e se perguntando: e o quê que o Bolsa Família tem a ver com feminismo que tem a ver com o Começo da Vida que tem a ver com o golpe e a saída da Dilma? O filme termina (tem spoiler rs) com uma linda música de um provérbio africano: é preciso uma vila para cuidar de uma criança. Uma mãe, um pai, não dão conta da tarefa que é educar um ser humano. Eles precisam estar ancorados numa família. Numa sociedade. Num país que os apoie e que dê condições para que eles se dediquem a tarefa maior de criar uma pessoa.

A partir de amanhã seremos governados por um homem. Que montou um ministério só de homens, brancos, ricos e heterossexuais. O Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos foi extinto, juntamente com outros tão importantes como. Se a luta para as mulheres, para as mães, para os negros, para os LGBT, para as minorias, já era árdua, agora se tornará extenuante. Não há representantes. Não há quem enxergue a dor. Não haverá empatia. Não teremos direitos. E assim seguiremos.

Para criar uma criança precisamos de uma vila. Para essa vila existir precisamos de homens e mulheres livres e iguais. Para isso precisamos entender que só haverá liberdade e igualdade quando nenhuma de nós estiver para trás. Enquanto uma mãe, uma mulher, não puder avançar, nenhuma de nós poderá. Enquanto uma mãe, uma mulher, estiver sendo oprimida, em situação de vulnerabilidade, nenhuma de nós estará livre. Enquanto uma mãe, uma mulher estiver sofrendo, a dor vai reverberar em todas nós. Seja a Dilma, seja a Débora Silva, seja a Zuzu Angel, seja a Luana Reis. Só podemos ir em frente, se formos todas juntas! Ubuntu.

(Nota pós textão: talvez tenha misturado tudo e mais um pouco. Mas era assim que estava me sentindo nesse 12 de maio de 2016. Emoção com o filme, revolta com a vida real e desconstruções internas.)

(Se você quiser ver o filme O Começo da Vida entra no site www.videocamp.com. É fácil e um mecanismo genial de transformação e propagação de ideias.)

#ocomeçodavida

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