Último dia.

Eu nunca fui uma pessoa maternal. Durante muitos anos afirmei que não seria mãe. Tinha pavor de pegar bebês no colo. Sempre achei que crianças grandes eram muito mais legais do que serumaninhos moles, que balbuciam e fazem coco nas fraldas.

Um dia veio uma vontade quase incontrolável de ter um filho. Já estava casada há cinco anos, vida tranquila, trabalho legal. Alguns podem alegar que foi o chamado da natureza para continuação da espécie. Ou a pressão social que sobrecarrega as mulheres. Não sei dizer o porquê. Mas quis ter um bebê. Foram dois longos anos tentando.

Quando o médico sugeriu um tratamento de fertilidade eu desisti. Achei que não era para mim esse lance de ser mãe. Um mês depois descobri que estava grávida. Foi no dia 10 de novembro de 2010. Lembro a hora. O local. O cheiro. A sensação.

Amei gestar. Fui uma grávida feliz, saudável. Me achava linda. Me sentia uma deusa carregando o bem mais precioso do universo: a própria vida.

Durante os nove meses fiz o que sempre faço quando vou enfrentar um novo desafio: li praticamente todos os livros sobre gestação, parto e criação de filhos que pude encontrar pela frente. Queria estar preparada. Queria fazer o melhor. Queria ter o controle de tudo. Pobre de mim, inocente.

A data provável do nascimento da Tarsila era 15 de julho de 2011.

No dia 15 de junho, às 03h30 da madrugada, a minha bolsa estourou. A Tarsila estava com 35 semanas. Apesar do susto ela nasceu muito forte e saudável, na banheira do hospital, às 19h29, depois de um trabalho de parto de apenas cinco horas. Era dia de eclipse lunar. Mamou na primeira hora de vida e assim continuou por dois anos.

Na primeira noite com ela percebemos que a palavra controle tinha assistido muito Rei Leão na vida e olhava para nós dizendo: eu rio na cara de vocês. Entendedores entenderão.

Aquela ratinha, pesando um pouco mais de dois quilos, com seus dois olhos de jabuticaba, mostrou a que veio em suas primeiras horas. Que pulmão senhoras e senhores. Indomável. Forte. Curiosa.

Passaram-se quase sete anos nessa loucura que é ser mãe. A cada dia entendo um pouco mais o que é amar e como amor só pode existir com liberdade. Controle é uma ilusão que custa muito caro. Eu sei disso.

Continuo não sendo uma pessoa muito maternal. E ainda assim preciso me esforçar para controlar as minhas asas para não segurar a Tarsila aqui debaixo mais um tempo.

Amanhã ela começa uma nova jornada. Será o primeiro dia de aula do Ensino Fundamental. Sinto como se fosse um novo parto. Ela está partindo para o mundo das letras, das palavras. E mais uma vez fica claro que sou apenas uma guardiã dessa menina. Não sua dona.

Olho para ela buscando aquele bebezinho que embalei por centenas de horas. Que amamentei por anos. As vezes consigo enxerga-la nos momentos de distração. Quando ela ainda me pede um colo. Quando quer colocar a mão no meu peito para se acalmar. Quando pede que eu conte alguma história de quando ela era “bebe”.

As feições mudaram. As conversas estão muito mais interessantes. O companheirismo cresceu. Ainda continua indomável, forte, curiosa. Que bom. Mas tudo está muito mais lindo e divertido.

Passamos quase três meses juntas, desde o final do ano passado. 24 horas. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo grudadas desde que ela nasceu. E amanhã ela vai partir.

Uma nova escola. Uma nova estrutura. Novos amigos. Nova professora. Do pequeno jardim secreto onde passou os últimos seis anos ela vai levar todo o universo de afeto, criatividade, alegria. Seu reservatório do primeiro setênio foi preenchido com louvor.

Cresce filha. O mundo é bão. O universo é fascinante. E há muito o que descobrir.

Que o mundo das palavras te acolha como me acolheu. Que elas te formem como me formaram. Que você cresça em sabedoria. Que as palavras que sejam ditas para você sejam de graça. Que as palavras que saiam de você sejam cheias de generosidade e afeto. Que você seja protegida pelo Verbo vivo e que escreva seu livro da vida de forma memorável.

Obrigada por ter me escolhido. Ser sua mãe me transformou e me transforma a cada dia. Sigo aprendendo com você a maternar e a viver. Seja feliz. E legal. Te amo.

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