Kaddish – Prece por uma desaparecida

Quando recebi o convite para escrever a biografia da Ana Rosa Kucinski eu estava grávida de 6 meses do Ernesto, terminando de editar o documentário Coratio e prestes a qualificar no doutorado.

O Bernardo Kucinski estava procurando alguém para a empreitada e um amigo em comum, o Flamarion Maués, me indicou. Só conhecia o Bernardo pelos livros dele e pela fama de ranzinza que tinha conquistado entre meus colegas jornalistas.

Me senti muito honrada, mas fui completamente sincera: eu nunca escrevi um livro, muito menos uma biografia, e estava um pouco atolada naquele momento.

Nunca soube o porquê. Mas o Bernardo preferiu me esperar à escolher outra pessoa.

Eu conhecia a história da Ana muito superficialmente. Sabia que ela era uma das desaparecidas políticas e que havia sido exonerada do cargo de professora da USP por abandono do cargo. Mesmo tendo sido sequestrada e desaparecida por militares.

No nosso primeiro encontro, Bernardo foi bem claro e direto: “eu estou velho, daqui a pouco vou morrer, a Ana foi morta, não deixou filhos, e tudo o que resta da memória dela vai morrer comigo. Eu quero deixar uma herança por ela. Quero que as pessoas a conheçam e que ela não seja apenas um nome em uma lista de desaparecidos políticos”.

Ele já havia escrito o grandioso “K. Relato de uma busca” sobre as buscas que ele e o pai haviam feito depois que ela desapareceu. Cabia a mim escrever sobre os 32 anos que ela viveu e os caminhos que a levaram até o fim.

Um fio solto de um novelo de lã. Quando comecei a puxar não tinha ideia do emaranhado. Foram dezenas de entrevistas. Em todas elas eu chorei. Junto com os entrevistados. A maioria eram senhores e senhoras em seus 70, 80 anos.

A cada conversa ficava claro como as feridas causadas pela ditadura estão abertas. A dor é latente.

Várias entrevistas foram interrompidas porque os entrevistados não conseguiam falar mais. Se emocionavam. Ou não queriam remexer no passado. Recebi muitos nãos. Pessoas próximas da Ana Rosa que não conseguiram falar sobre o assunto.

Quando já havia feito quase todas entrevistas eu me senti perdida. Para mim, escrever é um ato fisiológico. É como respirar. Faço com cada célula. Estava completamente envolvida. Fui conversar com uma das minhas deusas e mestre: Eclea Bosi (obrigada pela ponte Rafaela Barkay). Contei sobre o livro, sobre minha angústia, sobre as questões éticas que se colocam quando você está escrevendo sobre uma pessoa que não está mais aqui.

Eu sentia que era a pessoa que mais conhecia a Ana Rosa no mundo. A vida dela era um quebra cabeça. Cada conhecido, cada amigo, cada parente, tinha apenas uma peça. Eu recolhia essas peças e tentava montar o panorama geral. Eu ouvi segredos, revelações, arrependimentos, confissões. O que fazer com tudo isso? Como ter uma escrita real, ética e que honrasse a sua memória? Como mostrar para o mundo toda a complexidade de um ser humano, com suas qualidades, defeitos, erros, acertos? Como fugir do moralismo, do julgamento, dos estereótipos de heroína/mártir/vítima?

Estava chorando. Eclea sorriu daquele jeitinho doce e falou com a calma que os velhos sábios acumulam: “o que você está fazendo é divino. Para mim Deus é memória. Contar a memória é trazer à vida aqueles que já foram. É dar uma nova chance de vida aos mortos. Você faz parte dos planos divinos. Você está escrevendo história com ele e permitindo que a Ana Rosa viva mais uma vez. Não se preocupe. Ela vai te guiar”.

E ela me guiou.

Foram muitas madrugadas acordada escrevendo, lendo as cartas, mirando as fotos, revisando as entrevistas. As noites eram os únicos momentos de silêncio e paz para uma mãe de duas crianças. Escrevi um punhado de versões, fiz muitas revisões. Contei com a generosidade de amigos queridos que me ajudaram muito com leituras críticas. Obrigada João Nery, Mauricio Maia. E terei para sempre uma dívida de gratidão com o Ernani Lemos por seu afeto, olhar crítico e por me ajudar a achar uma forma de contar uma história que todo mundo já conhece o final, mas ninguém sabia do antes.

Quando acabei a primeira versão mandei para o Bernardo. Marcamos um almoço na casa dele. Fui recebida com o mesmo afeto de sempre, por ele e pela esposa Mutsuko. (Há muito tempo tinha percebido que a ranzinzice era mais defesa do que ataque). Ele tinha acabado de ler o livro. Estava com os olhos marejados e me perguntou: “por quê isso aconteceu, por quê?” Estava surpreso com algumas histórias que não sabia. E extremamente emocionado.

Foi naquele momento que eu percebi a importância do livro. A nossa passagem da ditadura civil militar para a democracia foi feita de forma apressada, sem reparação das injustiças, sem responsabilização dos culpados, sem nomear o horror. Viramos a página da história sem ter finalizado o capítulo. Ainda não terminamos de contar essa história. Não adianta seguir em frente sem enfrentar os monstros do passado. Isso vale para nós individualmente e para a nossa nação.

O livro está pronto há um ano. Eu terminei de escrever a tempo de entregar antes do aniversário de 80 anos do Bernardo, no dia 25 de outubro de 2017. Há um ano eu procurava por uma editora para publicá-lo, Contei com a gentileza e generosidade de amigos queridos que levaram o livro para algumas editoras ou indicaram para algumas pessoas que poderiam se interessar (obrigada e obrigada Andre Caramuru AubertDaniel De Mesquita Benevides). Recebi muitos nãos. Estava quase desistindo de publicar.

Há pouco tempo recebi um email do Grupo Editorial Letramento. Eu havia enviado o original em uma chamada pública que eles haviam feito. Não conhecia ninguém de lá. Eles leram o meu livro e acreditaram que era uma história que merecia ser lida. Assinei o contrato no dia 25 de outubro de 2018. Um ano depois de ter finalizado. No dia do aniversário de 81 anos do Bernardo. Nesse mesmo dia eu, ele e sua esposa Mutsuko nos encontramos. Dessa vez no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos. Eu sou uma das juradas do Prêmio Fernando Pacheco, uma iniciativa do Instituto Herzog para estudantes de jornalismo, e ele era o grande homenageado da noite.

Foram três dias antes do segundo turno das eleições. Três dias antes da população escolher um presidente que deseja reescrever a história negando o que os militares fizeram. Um presidente que acredita que o problema da ditadura foi não ter matado mais gente.

No dia 25 ainda havia um fio de esperança. Nós comemoramos a vida do Bernardo, a homenagem, a assinatura do contrato e publicação do livro.

Hoje eu agradeço toda essa jornada. Agradeço cada entrevistado, cada entrevistada. Cada noite que passei em claro. Cada lágrima que derrubei. Agradeço ao meu companheiro da vida e maior incentivador, Renan Silva. Agradeço pela minha família que me ensinou que o verbo se faz carne e que as palavras dão vida: Dagmar, Clovis e Bel.

Agradeço por publicar essa história nesse momento em que vivemos.

Que a memória da Ana Rosa Kucinski Silva seja honrada.

Zichrono Livracha.

 

( O livro pode ser comprado no site da editora Letramento: aqui)

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