CORATIO: Um documentário sobre violência de Estado. Da Ditadura aos dias de hoje

Quando eu tinha 16 anos li pela primeira vez o livro “Brasil: Nunca Mais”. Para quem não conhece, o livro, lançado em 1985, foi a primeira denúncia dos crimes de tortura, desaparecimentos e assassinatos cometidos durante a Ditadura Civil Militar usando documentos oficiais como prova dos crimes.

Fiquei impactada. As páginas dos processos de presos políticos relatavam o uso de choque-elétrico, pau-de-arara, de cães e cobras para intimidação, afogamento, ameaças de morte e de estupro e outros inúmeros castigos inexplicáveis e desumanos contra homens, mulheres e crianças. A crueza da realidade nunca me deixou esquecer as palavras escritas. Dezessete (17!) anos se passaram e eu entrei no Doutorado na ECA-USP. Minha tese foi sobre os livros apreendidos pela polícia durante a Ditadura. Para escrevê-la eu usei a mesma fonte de dados do livro “Brasil: Nunca Mais”, os processos jurídicos contra os militantes de esquerda do período de 1964 a 1979.

Foi então que surgiu a ideia de fazer um documentário contando a história do livro. Em 15 de julho de 1985 chegava às livrarias, sem qualquer anúncio, o livro “Brasil: Nunca Mais”. Em duas semanas ele já estava no topo das listas de mais vendidos. Um de seus principais objetivos era preservar a memória do que ocorreu durante a ditadura. E assim tentar garantir que a tortura e desrespeito aos direitos humanos nunca mais acontecessem. Conhecer para não repetir.

Como eles fizeram isso? De uma forma audaciosa e corajosa. Em 1979, com os primeiros passos rumo à redemocratização, alguns advogados decidiram agir para que os documentos produzidos pelos militares não fossem destruídos ou queimados – prática comum em cenários de redemocratização. E usando uma brecha legal do sistema, passaram a copiar todos os processos que estavam no Superior Tribunal Militar, em Brasília. Secretamente.

Para montar essa operação eles precisavam de dinheiro para comprar as máquinas fotocopiadores, pagar os funcionários, montar um escritório. Procurados pelos advogados, o reverendo presbiteriano Jaime Wright e o cardeal da igreja Católica Dom Paulo Evaristo Arns embarcaram nesta ousada empreitada. Conseguiram levantar o dinheiro com o apoio do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). De forma sigilosa, o então presidente do CMI, Philip Potter, arrecadou ofertas em todo mundo sem levantar suspeitas.

Dom Paulo Evaristo Arns também assumiria a maior parte dos riscos do projeto, colocando apenas o seu nome como organizador do “Brasil: Nunca Mais” e mantendo, até há poucos anos, anônimos quase todos os participantes. Afinal, em 1985 (quando o livro foi lançado), a democracia ainda era frágil.Surpreendentemente eles não foram descobertos, apesar de terem passado alguns sustos. Ao todo foram copiados 710 processos e seus anexos, um total de mais de um milhão de páginas.

Um grupo de pesquisadores finalizou um primeiro projeto, chamado de “A”, em que se reuniu de forma sistemática tudo o que havia nos processos. Ao todo são 12 volumes e mais de 6 mil páginas. Tudo pode ser acessado no site: http://bnmdigital.mpf.mp.br/#!/ ou no arquivo Edgard Leuenroth, da UNICAMP.Para que mais pessoas tivessem acesso às chocantes informações que eles encontraram, Dom Paulo Evaristo Arns decidiu resumir o projeto “A” em um livro. Coordenados por Paulo de Tarso Vannuchi, atual membro da Comissão de Direitos Humanos da OEA, os jornalistas Ricardo Kotscho e Frei Betto foram os responsáveis por transformar as seis mil páginas no livro “Brasil: Nunca Mais”. O livro, lançado em 1985 pela editora Vozes, está em sua 40° edição.

O documentário CORATIO foi feito de forma independente, com financiamento coletivo pelo Catarse. Fiz a produção e a edição e direção foram divididas com Gabriel Mitani.

Para assistir ao documentário, que conta essa história e mostra como a impunidade com os crimes do passado reforça a violência de Estado até os dias hoje, acesse ao link ou veja na barra lateral do site.

CORATIO

 

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